14 de janeiro de 2007

Monumento: Cemitério da Saudade


Fotos mostram a década de 1910.

O Cemitério da Saudade é um dos mais importantes do Brasil e incorpora cinco outros cemitérios particulares localizados em seus arredores. Fazem parte do que pode ser considerado "complexo Saudade", o Cemitério São José; o de São Miguel e Almas; o Cura D`Ars; o Cemitério Venerável da 3a Ordem do Carmo e o da Irmandade do Santíssimo Sacramento (no qual estão sepultadas inúmeras personalidades da história de Campinas).

Fundado em 10 de outubro de 1880, quando recebeu corpos anteriormente sepultados em um cemitério da Vila Industrial (desativado com a chegada da ferrovia) é o mais antigo cemitério de Campinas. Consta em registros históricos, que a desativação do cemitério nas proximidades da linha férrea deu-se por decisão da Câmara Municipal, e que o Saudade foi escolhido para substituí-lo pelo fato de estar situado, na época, distante do que era a área central da cidade.

Sua dimensão total é superior a 181,5 mil metros quadrados, nos quais estão sepultados monarquistas, republicanos, heróis, anônimos, escravos e imigrantes que, cada um a seu modo, contribuíram para construir a cidade e sua história. Nele estão erguidas cerca de 32 mil sepulturas onde já foram sepultados, desde o início de seu funcionamento até os dias atuais, aproximadamente de 500 mil corpos.

Joaquim Ferreira Penteado (Barão de Itatiba) construiu a capela (no centro da alameda principal, no Cemitério do Santíssimo Sacramento) e doou a área do cemitério para a cidade.

Até 1925 foi conhecido como Cemitério do Fundão, já que a área que ocupa pertencia à Fazenda do Fundão. O primeiro registro de sepultamento no Saudade data de 1889 e se refere ao corpo de uma mulher, embora tenha havido anteriormente alguns outros cujos registros se encontram na Cúria Metropolitana. Por sua importância na cidade, o cemitério teve seu portal de entrada, prédio administrativo e o traçado deste é atribuído à Ramos de Azevedo, assim como o projeto do cemitério público da cidade de Amparo, e inaugurados em 1899.

Prédio da Administração

A imponência das sepulturas em algumas de suas quadras revela o status em vida, o gosto e o comportamento das famílias abastadas, e a Economia do final do século XIX e início do século XX. Ou seja, a história da sociedade campineira em boa parte.

Memória Preservada

O Cemitério da Saudade guarda bem mais do que um período da história da arte tumular. Suas 112 quadras, que abrigam sepulturas de pessoas simples, de vítimas de epidemias, de ilustres, de heróicos policiais (sepultados no Mausoléu da Polícia Militar), além do monumento (ao lado do portal de entrada) em homenagem aos soldados constitucionalistas, que perderam a vida por um ideal em 1932, proporcionam uma retrospectiva da história de Campinas.


Logo na entrada, a suntuosidade das sepulturas localizadas do lado esquerdo, na alameda principal, revela o poderio em vida das famílias ilustres da cidade, que transferiam para as sepulturas, por meio do material que as confeccionavam, e de seus adornos, o poder e prestígio que possuíam em vida. Um dos exemplos é a capela onde está sepultado Joaquim Ferreira Penteado (Barão de Itatiba), e que deu nome à rua Ferreira Penteado no Centro de Campinas; a maior sepultura do Saudade.

A entrada do cemitério concentra as sepulturas das figuras de destaque da Campinas do passado. São barões, baronesas, monarquistas, republicanos, políticos, médicos, juristas e outras personalidades. E o fato de ocuparem esta área tem uma explicação: os terrenos dali eram os mais caros e apenas as famílias de posses podiam adquirí-los.

Mas o cemitério preserva também uma história bem menos esplendorosa, nem por isso menos importante. É nele que estão sepultadas as vítimas das epidemias de febre amarela que afetaram fortemente a população da cidade.

Sepulturas de pessoas de orígens e condições sociais diferentes dividem o espaço do Cemitério da Saudade. E, entre elas, as dos milagreiros, pessoas humildes que, ao longo dos anos, foram se transformando em objeto de devoção do povo, às quais se credita a realização de milagres. São conhecidos como milagreiros Maria Jandira, os três anjinhos e o escravo Toninho (escravo que foi do Barão Geraldo, e que está enterrado ao seu lado) .

Uma das sepulturas mais visitadas do Saudade é a de Maria Jandira. Segundo os devotos, ela era uma prostituta que ficou noiva e ia se casar. Mas bem próximo à cerimônia que faria dela uma senhora respeitada, o noivo desistiu do casamento. Desesperada Maria Jandira teria se suicidado, ateando fogo ao corpo. Sua sepultura, a de número 289, na quadra 28, recebe visitas de pessoas com problemas matrimoniais e amorosos.

Também são tidas como milagreiras três crianças que morreram em função de um incêndio na fazenda onde moravam. Os devotos levam oferendas para os "três anjinhos", modo como são identificados, principalmente no dia 27 de setembro, data em que são homenageados Cosme e Damião.

Homem de confiança do Barão Geraldo de Resende, o escravo Toninho, que trabalhava na fazenda de café do barão, era reconhecido por sua bondade para com todos os moradores da colônia. Quando morreu, o barão adquiriu um terreno para que Toninho fosse sepultado em área nobre no Cemitério da Saudade.

Quando o barão faleceu sua família quis que ele fosse sepultado bem próximo ao homem de sua confiança. Com o tempo, o povo passou a atribuir milagres ao escravo Toninho. Sua sepultura é ainda hoje uma das mais visitadas.

Entre os realizadores de milagres há também um ilustre: Vieira Bueno. Acredita-se que isto sé dá pelo fato de, em vida, ter sido extremamente bondoso e dedicado aos pobres. Como apontado em sua biografia, Vieira Bueno teve importância destacada no atendimento às vítimas de todas as epidemias de febre amarela que atingiram a cidade até sua morte, em 1905.

Museu a Céu Aberto

O Cemitério da Saudade tem, ao longo dos anos, desempenhado papel que não se restringe somente ao sepultamento de corpos. Tem servido também, por sua importância histórica, cultural, e por sua beleza, de espaço para teses universitárias, pesquisas e aulas de História, de tema para livros e recorrentes reportagens de jornais e revistas e foi utilizado como cenário para produção cinematográfica de alcance nacional.

Imagens do Saudade foram mostradas em todo o país no filme "Memórias Póstumas de Braz Cubas", adaptado da obra de Machado de Assis, e estrelado por Sônia Braga e Reginaldo Faria. Parte do filme foi rodada no Cemitério da Saudade em 1999.

O interesse dos segmentos voltados à arte, à cultura e ao ensino e à história pelo Cemitério da Saudade tem justificativa; a de ser considerado um museu a céu aberto, cuja preservação é indispensável.

Esta qualificação se dá por conta da sofisticação e da quantidade de obras produzidas por figuras de renome da arte da escultura em mármore que ornamentam grande parte das sepulturas. Em especial aquelas onde estão sepultados os ilustres da história de Campinas.

De extrema importância para o estudo da arte tumular (e para entender a segmentação social na cidade durante o final do século XIX e início do século XX, auge do período em que o café era o grande gerador de riqueza), o Saudade abriga trabalhos de marmoristas que chegaram da Itália no final do século XIX, além de algumas obras encomendadas pelas famílias e trazidas da Itália.

São peças em mármore carrara, considerado uma das pedras mais nobres para escultura, que chegava ao Brasil pelo porto de Santos em grandes blocos vindos de Marina de Carrara, no Noroeste da Itália. Conta-se que famílias abastadas da cidade escolhiam em catálogos europeus as esculturas para ornamentar suas sepulturas. E as peças eram fielmente reproduzidas pelos marmoristas.

As esculturas, no entanto, não obedecem a um único estilo artístico. Em algumas das sepulturas pode-se notar a mistura deles. Na de Leonor Penteado, por exemplo, é possível observar uma escultura do italiano Giuseppe Tomagnini, considerado talvez o maior fornecedor de mármore da Itália e o grande representante da fase da arte tumular em mármore no Saudade. A sepultura (uma das primeiras da alameda principal) mescla arte grega, realismo e neoclássico, definindo o ecletismo de estilos adotado na época.

Além de Tomagnini, outros escultores contribuíram para a valorização artística do Saudade. Anjos, bustos, frades, santos, Pietás, Cristos e adornos são assinados também por artesãos das famílias Marcelino Velez, J. Rosada e Bocatta, de talento inegável.

Os artistas eram em maioria oriundos de famílias de imigrantes italianos. A imigração favoreceu a expansão da técnica da cantaria (entalhe detalhado) no Brasil e acabou por transformar o Cemitério da Saudade em local onde a tradição sobrevive em um de seus últimos redutos. Os artistas que deixaram suas obras no Saudade eram fortemente influenciados pela escola italiana Pietrasanta.


Lélio Coluccini, escultor de reconhecimento mundial, ganhador de importantes prêmios internacionais (que estudou na Pietrasanta e está sepultado no Saudade), deixou também sua marca por meio do número expressivo de obras de arte que ornamentam várias sepulturas.

Admirado por Pietro Maria Bardi - que em vida dirigiu o Museu de Arte de São Paulo (MASP), Coluccini é autor de outros trabalhos que podem ser observados em Campinas. A Revoada das Andorinhas, em frente ao Museu de Arte Contemporânea José Pancetti (MACC) e o Monumento ao Bicentenário, no Largo das Andorinhas, são dois exemplos.

Pucceti, contemporâneo de Coluccini, além de Nicola del Nero e Albertini, deixaram igualmente marcas do talento no cemitério, através de obras de arte que produziram, já não em mármore, mas em granito, latão e bronze, que após a Segunda Guerra Mundial passaram a dominar a arte tumular no Brasil. Coluccini em uma segunda fase de seu trabalho, também utilizou estes materiais, esculpindo figuras estilizadas, obedecendo já aos padrões do Modernismo.

Examinando as obras de arte guardadas no Saudade é impossível apontar a escola predominante nas esculturas, uma vez que elas carregam elementos neogóticos, renascentistas, coloniais, da arte grega, do realismo e da art-décor. Mas é possível identificar as três fases pelas quais passou a arte tumular: a do mármore carrara, a do granito e a do bronze/latão.

A Segunda Guerra Mundial - que dificultou as importações e terminou por instalar uma crise econômica também mundial, tornando mais escassa a riqueza gerada pela produção do café brasileiro - é atribuído o declínio do mármore carrara que, na arte tumular, foi sendo substituído, então, por materiais mais acessíveis.

A sepultura de Thomaz Alves parece separar as quadras que demonstram a queda do mármore dos barões e poderosos, e a ascensão de materiais menos nobres. A sepultura é ornamentada, além do mármore, também com granito e bronze/latão.

6 comentários:

Anônimo disse...

É o lugar onde vamos ter saudade de nós mesmos

J.M.Fantinatti disse...

Palavras sábias.

Fernando Salles disse...

"Pasatiempo", de Mario Benedetti

"Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.

Luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque era océano
la muerte solamente
una palabra.

Ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros.

Ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.

J.M.Fantinatti disse...

Fernando, bonito poema.

Anônimo disse...

Adorei seu blog!!! Sou historiadora e tenho um trabalho sobre o Cemitério da Consolação em São Paulo. A minha próxima pesquisa será sobre os hábitos de sepultamentos na cidade de Campinas. Parabéns!!! Se quiser entrar em contato, meu e-mail é danielaclio@gmail.com

Anônimo disse...

Já conhecia este cemitério, indo visitar tumulo de colegas/amigos como Dr. Antonio Carlos Alves Braga. Por ironia do destino no dia 23 p.p. enterrei minha mãe, que adotou esta cidade como dela a decadas.Dra. Anerina B. L.Salles.