27 de janeiro de 2007

Curiosidades: História da Água em Campinas

Inspirado no livro "Campinas do Matto Grosso - Da febre amarela à cólera dos rios", de José Pedro Martins, editado em 1997, tem-se o que se segue.

Campinas foi formada a partir de núcleos urbanos que se desenvolveram às margens de rios. No caso de Campinas, os três "campinhos" que deram origem à cidade também floresceram às margens de rios ou córregos.

Aquele "campinho" que foi provavelmente o primeiro núcleo de povoação, localizado onde atualmente termina a av. Moraes Salles, no cruzamento com a Via Norte-Sul (hoje Av. José de Souza Campos), era banhado originalmente pelo Córrego Lavapés, atual Córrego Proença. Era o "campinho" mais próximo do Caminho de Goiás, a rota dos bandeirantes rumo ao Eldorado brasileiro.

Já o "campinho" que originou o Largo do Carmo, onde a cidade nasceu "oficialmente", era por sua vez banhado pelo Córrego Tanquinho, que nascia nas proximidades do atual Largo do Pará, acompanhava o sentido da Rua de Cima (atual Barão de Jaguara) e descia, em direção à atual av. Anchieta, até encontrar-se com o Córrego do Barbosa, depois do Serafim e hoje da Orosimbo Maia. O Córrego Tanquinho também passava próximo do terceiro "campinho", no Largo da Santa Cruz (hoje Praça 15 de Novembro), usado para enforcamentos de escravos no final do século XIX.

A foto da década de 1920, mostra o córrego do Serafim, hoje córrego da Orosimbo Maia

Todos os três cursos d'água, fundamentais para alicerçar o crescimento da cidade, foram vítimas do chamado progresso a qualquer preço. O desaparecimento de dois deles, o Córrego Lavapés (hoje Proença) e o Tanquinho, debaixo do asfalto de grandes avenidas, é um dos símbolos máximos de como a natureza foi deixada em segundo plano no processo de "desenvolvimento" de Campinas.

E as agressões aos rios têm a própria idade do espaço urbano. O Córrego Tanquinho, principalmente, o primeiro que conviveu diretamente com o núcleo urbano formado a partir das ruas de Cima, do Meio e de Baixo, desde cedo passou a receber esgotos, lançados naturalmente sem tratamento. O Córrego sofria, igualmente, os impactos dos resíduos depositados a céu aberto em dois dos três lixões que existiam em Campinas até o início do século XX, no atual Largo do Pará e na Praça Carlos Gomes. (O terceiro lixão ficava onde hoje funciona o Mercadão.)

Atual Córrego da Orosimbo Maia, em função da avenida do mesmo nome, o Córrego do Barbosa foi por muito tempo o limite do centro urbano de Campinas. Com o avanço da cidade em direção ao Norte e ao Oeste, o Córrego passou a receber os esgotos urbanos, e no final do século XIX passou a ser conhecido como Canal de Saneamento - em decorrência da febre amarela, foi o local escolhido para a instalação do primeiro filtro de esgotos da cidade, patrocinada pelo governo estadual de Antônio Pinheiro de Ulhoa Cintra, o Barão de Jaguara.

Nenhum dos três córregos, em razão da degradação precoce, vai acabar fornecendo água para o abastecimento de Campinas, à exceção de um projeto muito limitado, de captação no Córrego Tanquinho, proposto em 1873 pelo vereador Raphael Sampaio e inaugurado dois anos depois, atendendo a moradores no quadrilátero entre as avenidas Francisco Glicério, Regente Feijó, Aquidabã e Uruguaiana. Até meados do século XIX a população se servia, de modo geral, nas bicas, que deram origem ao ofício do "aguateiro". Era o profissional que recolhia a água das bicas e vendia para a população.

Em 1855, como medida preventiva à propagação da epidemia de cólera que atacava vários pontos do território brasileiro, a Câmara Municipal de Campinas divulgou uma série de medidas sanitárias, várias delas relacionada ao cuidado com a água.

Dois anos depois, a mesma Câmara solicita, através de seu presidente, Luiz Henrique Pupo de Moraes, à Assembléia Legislativa Provincial, recursos para financiar a instalação de um chafariz. A 12 de agosto de 1858, a Tesouraria Provincial expede um ofício, comunicando a liberação para Campinas de "oito contos de réis, sendo seis contos para serem aplicados na construção de um chafariz", o que apenas ocorreria em 1873.

Na realidade, seriam construídos três chafarizes de ferro, colocados no Largo do Pará, Largo do Teatro (hoje Praça Rui Barbosa) e Largo do Rosário. Eles começaram a funcionar a 11 de dezembro de 1874.

Acima foto de 1904 mostra o chafariz de ferro no Largo do Rosário


ABASTECIMENTO E EPIDEMIA

Depois da inauguração dos chafarizes, somente em 1885 aparece o primeiro Projeto de Abastecimento de Água para a Cidade de Campinas, de autoria do engenheiro Antônio Francisco de Paula Souza. O projeto foi o embrião do funcionamento da Companhia Campineira de Águas e Exgottos, criada a 5 de julho de 1887.


Foto de 1916 mostra um dos reservatórios da Companhia Campineira de Águas e Exgottos


Os sócios da empresa eram o coronel Joaquim Quirino dos Santos, Bento Quirino dos Santos, o próprio Paula Souza e o engenheiro inglês Roberto Normanthon. O especialista inglês seria o responsável pelo projeto de captação de água finalmente escolhido para Campinas, e que não vai seguir as recomendações de Paula Souza.

Pelo projeto de Normanthon, seriam captadas as águas dos ribeirões Iguatemi e Bom Jesus, a 18 km do centro de Campinas, na então Vila de Rocinha. O bairro depois passou a pertencer a Vinhedo, e o sistema de abastecimento foi repassado à Prefeitura de Valinhos.

Com a febre amarela que atingiu a cidade em 1889, é apressada a construção do sistema de abastecimento, inaugurado a 2 de janeiro de 1891, pelo já prefeito Antônio Álvares Lobo (com a Proclamação da República, o Executivo Municipal que cabia à Câmara passa para as mãos do intendente, precursor do atual prefeito).

Casa de aferição do nível do reservatório existente até hoje na av. Abolição

Subterrâneos da mesma estação de tratamento de água da av. Abolição

Os efeitos da febre amarela, que esvazia a cidade no final do século XIX, fazem com que o sistema da Rocinha seja suficiente para o abastecimento de Campinas até a segunda década do século XX. A ampliação do sistema de abastecimento, para atender ao novo surto de crescimento a partir da década de 1920, será feita já com a Companhia Campineira municipalizada, a 7 de dezembro de 1923.


Estudos para a ampliação do próprio Sistema Rocinha foram de fato realizados, pelo engenheiro Egydio Martins, a pedido do prefeito Miguel de Barros Penteado. Mas os projetos são abandonados, sendo então analisados os planos de captação no rio Atibaia, que já tivera um papel importante para Campinas, na movimentação dos primeiros engenhos de cana no século XVIII.

Um primeiro projeto, de Augusto de Figueiredo, foi melhorado pelo próprio Egydio Martins, e finalmente assumido por uma Comissão Especial da Câmara Municipal, encarregada de discutir e decidir sobre o novo sistema de abastecimento de água, considerado estratégico para sustentar o crescimento futuro de Campinas.

Em 1934, a Comissão Especial emite o seu parecer, dando-se início à implantação do sistema, baseado na captação e adução inicial de 10 milhões de litros. Um reservatório seria construído no bairro Cruzeiro, de onde a água seria distribuída por gravidade para as áreas baixas do Fundão, Vila Maria, Vila Marieta e Vila Paraíso. Também haveria sub-adutoras para o Chapadão e a Ponte Preta, cujo reservatório já recebia as águas da Rocinha.

A inauguração do novo sistema aconteceu em 1936, viabilizando o grande crescimento da cidade nas décadas de 1940 a 1970, mas já na época Campinas perdeu a oportunidade de instalação concomitante de um sistema de esgotos, que chegou a ser examinado pela mesma Comissão Especial da Câmara, mas não foi concretizado por falta de recursos e de alguma vontade política.

Depois, com o crescimento exagerado nas décadas 1950 a 1980, todos recursos existentes passaram a ser investidos na ampliação do sistema de distribuição de água. Além disso, os recursos disponíveis estavam concentrados, durante o regime militar inaugurado em 1964, na esfera do Sistema BNH e das empresas estaduais de saneamento. Isso tudo, aliado ao mito político de que "dinheiro investido embaixo da terra não dá voto" (no caso obras com tratamento de esgotos), resultou em um atraso de mais de 60 anos para a instalação de um sistema de tratamento de esgotos urbanos, em Campinas e região, e a consequência é o que se vê hoje.

Um comentário:

eduarda disse...

Eu achei o texto muito bom ele me ajudou muito no meu trabalho de geografia